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Palestra apresentada na mesa redonda “ANÁLISE DE UM ESTUDO DE CASO SOB DIFERENTES ABORDAGENS TEÓRICAS” na VII Semana da Saúde realizada na Universidade Braz Cubas, no dia 14 de outubro de 2004.

 

 

Roseleide da Silva Santos

 

 

CASO CLÍNICO

 

IDENTIFICAÇÃO:  

D., 22 a., 2º ano de Administração, solteira, mora só com os pais

 

QUEIXA:

Muito medo do futuro -- “Não sei o que vou fazer”. Indecisa, insegura-- "Tenho medo de ficar sozinha em casa; “medo de dormir sozinha”. “Estou desligada, desatenta, desinteressada das coisas”(sic). A mãe e o pai estão muito preocupados com ela, pois há mais ou menos 01 ano está assim.  

RELACIONAMENTO COM A FAMÍLIA:

Considera ter um bom relacionamento com os pais, que dão tudo a ela. Se dá melhor com a mãe (43a) que é alegre e expansiva. Seu pai (49a) é muito fechado, não é muito afetivo e ela tem muito respeito por ele. Ele se dava melhor com sua irmã (24a) que é falecida. Os pais ficaram e ainda estão muito abalados com a morte da primeira filha, e agora estão muito preocupados com a cliente. A irmã da cliente faleceu há 1 ano, e a família passou por um momento difícil. A irmã (segundo a cliente) era o “centro da casa”. Ela trazia todas as notícias, e trabalhava com o pai na empresa que o pai possui. Era o “braço direito do pai”.

 

DADOS DAS ENTREVISTAS:

Infância feliz no geral. Foi aluna regular, não era boa em matérias decorativas. Repetiu duas vezes a 6ª série. Há 1 ano terminou um noivado. Foi difícil, pois gostava muito dele, mas brigavam muito. Nas entrevistas fala muito de seus medos que a angustiam: toda noite lembra da irmã, reza muito. Lembra do que aconteceu com ela e diz que “a hora de dormir é horrível”. Sempre tem esses pensamentos. Muitas vezes sonha com a irmã. Tem medo de barulhos à noite, imagina que alguém vai mata-la ou matar seus pais (a irmã foi assassinada por um ladrão). Lembrar que não tem mais a irmã dá muita tristeza, sente muito sua falta. Quando sente medo acende a luz, liga o som, tranca a porta. Chora muito -- está pior há 2 meses -- sente-se muito triste e muito quieta, sem vontade de fazer as coisas. Não entende o que sente agora, pois sempre foi muito alegre, falante, “a alegria da casa”. Sempre foi carinhosa e brincalhona com os pais. Quando a irmã morreu, ela queria animá-los para que não ficassem tão tristes, mas agora não consegue e não sabe o que fazer.

 

Em primeiro lugar, quero agradecer à Universidade Braz Cubas e, em especial, ao Prof. Amilton Martins dos Santos, o convite para participar da VII Semana da Saúde.

Inicio esta explanação compartilhando com vocês a minha dificuldade em lidar com a proposta de realizar um estudo de caso por meio de um texto, pois a Gestalt-Terapia é uma terapia de contato.

Minha proposta então é fazer uma melhor compreensão a partir da descrição da demanda fornecida pela cliente e para isso começarei apresentando o que é a Gestalt-Terapia.

“A Gestalt-Terapia é uma abordagem psicoterapêutica nascida da inter-relação de várias escolas filosóficas e teóricas a partir da organização específica que seu criador, Frederick Perls, construiu.

Para a Gestalt-Terapia, a existência humana é definida segundo a relação campo-organismo-meio, sendo impossível conceber o ser humano fora do contexto e do meio no qual ele está inserido, e das relações que estabelece a partir daí.” (Kyan)

Na Gestalt-Terapia o indivíduo é visto como um ser relacional em constante troca criativa com o meio.

A abordagem gestáltica é uma abordagem de campo fenomenológica, por seu aspecto de descrever o que e como experiencia naquele dado momento, em vez de presumir ou explicar.

“A relação entre o terapeuta e o cliente é o aspecto mais importante da psicoterapia. O diálogo existencial é uma parte essencial da metodologia da Gestalt-Terapia, e é uma manifestação da perspectiva existencial de relacionamento” (Yontef, 1998).

Cabe aqui uma explicação sobre o relacionamento dialógico: O terapeuta coloca-se como um todo na experiência do cliente, sabendo que ele é diferente, ou seja, fica centrado em si, em sua existência e é capaz de estar do outro lado, compartilhando sua perspectiva (aquilo que vê, sente, percebe etc). O relacionamento se dá baseado explicitamente no que a pessoa está experienciando, pois a explicação afasta o vivido, ou seja, o que acontece “entre” as pessoas envolvidas naquele instante. Por isso não há hierarquia de posições, o relacionamento é horizontal, o que proporciona um diálogo vivido, e não discutido.

O diálogo existencial cria um espaço potencial, onde o terapeuta é um parceiro inter-humano, no qual haja disponibilidade de revisitar experiências com o intuito de promover um novo olhar para despertar uma nova visão integradora do ser no mundo.

“ O relacionamento origina-se no contato. Por meio dele as pessoas crescem e formam identidades. Contato é a experiência da fronteira entre o “eu” e o “não-eu”. É a experiência de interagir com o não-eu enquanto mantém uma auto-identidade distinta do não-eu.” (Yontef, 1998).

O contato acontece por meio das funções de contato que são o instrumental para ir ao encontro, sentir, avaliar e selecionar o que se encontra ao redor a fim de reconhecer e satisfazer suas necessidades. O contato é vitalizador à medida que nos envolvemos com o que emerge como interessante.

Eis aqui alguns exemplos das formas de como se estabelece contato e de como sua observação nos revela como esta sendo feito este contato.

A compreensão de como estas funções estão sendo manifestadas nos revela de que forma a pessoa se conecta com consigo e com o outro.

Diante da impossibilidade de estabelecer contato e realizar qualquer tipo de diálogo, vou imaginar uma pessoa entrando em meu consultório e para isso vou hipotetizar um atendimento.

Em primeiro lugar, quero ressaltar o que se destaca como Figura: O terapeuta é seu próprio instrumento de trabalho:

Em seguida é importante a compreensão da relação entre Figura e Fundo

* Figura: Sente-se desligada, desatenta, desinteressada, indecisa, insegura, triste, quieta ► MEDO.

* Fundo: Perdas significativas:

*Familiar vivência de um período transformador – falecimento da filha – num contexto social ameaçador Contexto social no qual estamos inseridos - violência

* Rompimento do noivado

A correlação entre figura/fundo não está dissociada, tendo em vista que quanto maior a distância maior a possibilidade de um quadro patológico e também não se caracteriza como pânico porque há um motivo aparente.

“O processo de formação de figura/fundo é um processo dinâmico no qual as urgências e recursos do campo progressivamente emprestam suas forças ao interesse, brilho e potência da figura dominante. Não tem sentido, por conseguinte, tentar lidar com qualquer comportamento psicológico fora de seu contexto sociocultural, biológico e físico.” (Perls, Hefferline e Goodman, 1997).

Vocês devem estar se perguntando o que vem a ser a relação figura/fundo que é considerada um processo contínuo e vital. Todo o ser humano tem a tendência natural à complexão da forma, onde o organismo age tentando fechar uma situação inacabada, organizando a forma e que o significado do fenômeno emergente é dado pelo contexto total desta situação específica.

Neste momento, quero compartilhar o que me impactou ao ler a queixa. Deparei-me com a sensação de angústia e paralisação em um contexto de perdas de parceiros, evidenciando um ambiente de insegurança que impossibilita o controle dos acontecimentos e falta de suporte, isto é, se contatar para fechar uma gestalt sendo fiel ao que vê, sente, percebe.

Tal sensação me leva a vislumbrar que se trata de uma questão existencial, ou seja, uma angústia existencial frente a finitude do ser.

A angústia nos revela a possibilidade de um dia não estar mais aqui e zelar, unicamente, por esta duração, o que pode ser constato no relato quando ela diz que tem “medo do futuro”

As pessoas que mais temem a morte são sempre as mesmas que mais temem a vida e nosso trabalho seria investigar com cuidado a essência deste sentimento.

A partir desta investigação passaríamos a resignificar sua existência ampliando a capacidade vivencial através da compreensão do vivido, do sentido por meio do reconhecimento dos recursos de si para que ela encontre os ajustamentos criativos.

“Este termo refere-se aos ajustamentos possíveis entre o individuo e o meio que possam promover de alguma forma o fechamento de figuras.

Assim, pensando no termo ajustamento criativo e desmembrando-o, podemos entender que esse processo demanda um ajustamento possível naquele momento, porém interagindo criativamente dentro do campo de interação.” (Kyan)

A terapia favorece a canalização da força que reestrutura e proporciona a fluidez no meio psicológico usando de seus próprios recursos, de sua potencialidade.

O processo de mudança começaria com a aceitação de sua condição. Para isso nos utilizaríamos da Teoria Paradoxal da Mudança.

“...esta mudança ocorre quando a pessoa se torna o que ela é, e não quando ela tenta se tornar o que não é. A mudança não ocorre por meio de uma tentativa coercitiva do indivíduo ou de qualquer outra pessoa em mudá-lo, mas acontece se a pessoa faz o esforço, e leva o tempo necessário, para ser o que é – estando integralmente de posse de suas posições atuais. Pela rejeição do papel de agente da mudança, a tornamos mudança ordenadas e significativamente possível.” (Beisser, 1970 citado por Yontef, 1998).

A mudança neste sentido é uma decorrência do SER, quanto mais uma pessoa está integrada em seu Self, mais ela se desenvolve, e aí as mudanças são ocorrências naturais deste desenvolvimento. Crescer é ter o tamanho de si mesmo. É quando a medida interna e externa encontram-se em pleno ajustamento.

Com isso, há o favorecimento da ampliação de awareness.

“Awareness é uma forma de experienciar. É o processo de estar em contato vigilante com o evento mais importante do campo indivíduo/ambiente, com total apoio sensoriomotor, emocional, cognitivo e energético.

É eficaz apenas quando fundamentada e energizada pela necessidade atual dominante do organismo.

Não está completa sem conhecer diretamente a realidade da situação, e como se está na situação.

É sempre aqui-e-agora e está sempre mudando, evoluindo e se transcendendo.” (Yontef, 1998)

Eficiente quando atinge uma necessidade significativa fazendo sentido para o que é mais importante no momento, ou seja, ela sabe o que faz, como faz, cria alternativas e escolhe ser como é.

Finalizando o que consideramos como funcionamento saudável é:

“Funcionamento saudável vai ser então o fluxo contínuo e energizado de awareness e formação perceptual de figura-fundo, onde através de fronteiras permeáveis e flexíveis o indivíduo interage criativamente com seu meio ambiente, desenvolvendo recursos novos para responder às dominâncias que se lhe afigurem e usando suas funções de contato para poder avaliar e apropriadamente estabelecer contatos enriquecedores e interrompê-los quando tóxicos e intoleráveis. Saúde seria a prevalência e relativa constância deste tipo de funcionamento.” (Ciornai)

 

Sugestões de leitura:

Ciornai, S. – Relação entre criatividade e saúde na Gestalt-Terapia – Palestra apresentada em 1995 no I Encontro Goiano de Gestalt-Terapia, publicada em 1995 na Revista do Instituto de Treinamento e Pesquisa em Gestalt-Terapia nº 01, Goiânia, 1995

Kyan, A. M. M. – E a Gestalt emerge: vida e obra de Fritz Perls – Altana

Perls, F.; Hefferline, R.; Goodman, P. – Gestalt-Terapia – São Paulo, Summus, 1997.

Polster, E.; Polster, M. – Gestalt-terapia integrada – São Paulo, Summus, 2001.

Yontef, G. M. - Processo, Diálogo e Awareness: ensaios em Gestalt-Terapia, São Paulo, Summus, 1998.

Zinker, J. C. – A busca da elegância em psicoterapia: uma abordagem gestáltica com casais, famílias e sistemas íntimos – São Paulo, Summus, 2001.



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