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Gravidez na Adolescência: Des-Encontro Feminino  

Roseleide da Silva Santos e Kátia Simone da Silva  

Texto apresentado na conclusão do Aprimoramento em Psicologia Clínica – Terapia de Adolescente pela Universidade São Judas Tadeu, Dezembro de 2001.

“Para que o indivíduo satisfaça suas necessidades, deve ser capaz de manipular a si próprio e ao seu meio, pois mesmo as necessidades puramente fisiológicas só podem ser satisfeitas mediante a interação do organismo com o meio”

Perls, 1981

 

Quando pensamos na proposta de redigir um texto que abordasse a gravidez na adolescência, num primeiro momento, questionamos o quanto nós, mulheres, temos controle sobre nossas vontades sexuais e até que ponto conhecemos as dificuldades de criar um filho? Refletimos se nós, realmente, evoluímos na sociedade e deixamos de representar o papel maternal e passamos a reinvidicar nossos direitos e deveres no mundo. Parece contraditório iniciar com esta colocação, apontando para nossas dúvidas pessoais, mas delas surgiram pontos que são extremamente importantes para tentarmos compreender o que é, atualmente, para uma adolescente, que começa sua vida sexual, ter a responsabilidade de um filho e as conseqüências, perdas e ganhos, que tal situação acarreta.

Após inúmeras discussões sobre o tema, passamos a observar, do ponto de vista psicológico, quais as transformações emocionais decorrentes de uma súbita e inesperada gravidez na adolescência, e para tanto necessitamos caracterizar esta fase da vida humana. De acordo com Osório (1989, pág. 11). “A adolescência é uma etapa evolutiva peculiar ao ser humano. Nela culmina todo o processo maturativo biopsicossocial do indivíduo”. Atualmente, podemos afirmar que os jovens apresentam condições sociais e emocionais para terem um desenvolvimento sadio? Como podemos ter convicção de que os jovens estão sendo devidamente preparados para a vida adulta numa sociedade individualista, competitiva, insegura e, acima de tudo, em constantes metamorfoses, isto é, sem limites? A resposta para tal questão exige uma profunda reflexão sobre o que estamos criando ao nosso redor e o que desejamos neste texto é uma pequena avaliação sobre uma manifestação adolescente cada vez maior: A GRAVIDEZ NÃO PLANEJADA.

Muitos profissionais, de diversas áreas, apontaram várias respostas ao fato de que milhares de adolescentes ficam grávidas todos os anos, entretanto, acreditamos que a resposta a tal questionamento esteja, principalmente, no papel feminino contemporâneo.

Diante das afirmações dos autores, é importante ressaltar que as manifestações expressivas dos jovens tendem a refletir as singularidades do ambiente, suas facilidades e dificuldades, e retratam o que é comum e divergente nos diversos grupos sociais e culturais. O que é aceito como expressão saudável do jovem pode não ter o mesmo significado em um contexto ambiental diferente, ou seja, não é possível contextualizar um adolescente que tem valores e princípios completamente opostos, como por exemplo, a cultura oriental e ocidental, guardando as devidas proporções.

Segundo Desser (1993, pág. 19) “enquanto é socialmente admitido ao homem adolescente experimentação e erros (“coisas da idade”), nos quais ele pode treinar e experimentar sua criatividade, à mulher adolescente multiplicam-se os discursos e práticas que condicionam e treinam sua “aptidão” ao papel que deve, sobretudo, assumir na sociedade: mãe e esposa, isto é, reprodutora da vida e do social, antes que produtora da vida e do social.”

Mediante a visão machista e conservadora que ainda persistem em nossa sociedade, na qual é permitido e aclamado ao sexo masculino “experimentar”, como fica o sexo feminino que é “experimentado”? E, pior, quando fica grávida? Estas são apenas algumas perguntas que gostaríamos de ter respostas, entretanto, se não as tivermos vale a reflexão sobre o atual papel que nós temos em nossa cultura, isto é, o de repressor ou que favorece o diálogo e a compreensão desta etapa de nossas vidas.

Analisamos que existam alguns fatores que contribuam para o crescente número de adolescentes grávidas: falta de informação que ainda existe em nossa sociedade aliada à falta de diálogo entre pais e filhos um aspecto que contribui para o aumento de adolescentes grávidas. Segundo Barroso et all (1986, pág. 65) “Mas a desinformação nada mais é do que um sintoma de um mal maior que perpassa de maneira invisível às vidas de milhares de adolescentes. Não obstante as transformações culturais das últimas décadas, os preconceitos em relação a tudo que diz respeito, direta ou indiretamente, à sexualidade humana continuam tão arraigados como antes.”

Recentemente, a revista “Viver Psicologia” (2001, edição 102) trouxe em sua matéria de capa o tema: “Menina mãe”. A reportagem assinada por Mariana Viktor enfatiza a importância da dinâmica familiar, na qual sua estrutura baseia-se no diálogo, proporcionando um ambiente harmonioso, o aparecimento da gravidez é reduzido pois “o jovem que vive num ambiente equilibrado, que tem estrutura e afeto da família, e uma boa auto-estima, dificilmente vai assumir um comportamento de riscos, seja quanto a drogas ou a sexo.”

Quando a base familiar não é tão receptiva, a adolescente enfrenta uma situação apavorante, o que é constatado no estudo apresentado por Melo (1993) que ressalta que para a jovem grávida, a confirmação da sua gravidez e o enfrentamento do fato em si, a avaliação interior psico-emocional de aceitar ou não a gestação, revelar à família a sua condição de gestante é, em sua quase totalidade, um processo solitário. Depois de se tornar pública a gravidez e já em situação irreversível, são articuladas geralmente pela família da jovem as soluções possíveis do “erro do casal”, que procura um acerto social, como a união legal ou não, ajuda econômica ou reconhecimento do filho pelo parceiro da jovem – o qual, muitas vezes, exime-se de quaisquer responsabilidades. A gestação precoce não pode ser vista isoladamente ou como um acontecimento somente pessoal. Deve ser contextualiza no meio familiar e social da adolescente, uma vez que as reações, soluções, maior ou menor apoio afetivo, social ou econômico que a jovem receba serão tão diversificados quantos forem os meios culturais e as condições sócio-econômicas. Neste ínterim, a adolescente gestante vive em estado de pânico ou de apatia, diante na nova condição, e ante as pressões familiares e sociais, sobra-lhe pouco tempo e espaço para “entender” e “decidir” sobre o que realmente quer. As decisões geralmente são tomadas por outros, muitas vezes à sua revelia. Isto significa também que as decisões dependem da relação entre a adolescente e o seu interlocutor – seja a mãe, um parente, o parceiro, uma amiga etc.

Pinto (2001) levanta a seguinte questão, da qual concordamos: “...é que a mulher adolescente, ao se descobrir grávida, se vê diante de três caminhos: o abortamento, o casamento forçado ou ser mão solteira. Dá para imaginar como deve ser ruim estar diante dessa dúvida?”. Acreditamos que para uma jovem que inicia sua vida social, emocional e sexual, deparar-se com um problema desta natureza exiga uma maturidade que, infelizmente, ainda não adquiriu.

Neste contexto a adolescente, perante o fato irrevogável da gravidez, encontra-se numa situação na qual procurar ajuda, sem criticas ou julgamentos, é o recurso mais apropriado para facilitar a compreensão de seu problema e como procurar alternativas viáveis para solucioná-lo. Tal ajuda é, em muitos casos, feita pela família, propriamente, pelos pais, que por sua vez, vivem um momento transformador, pois necessitam reavaliar sua maneira de encarar esta realidade. Segundo Saikali (2000, pág.89) “Para sentirem-se conectados com seus filhos alargaram suas alternativas de condutas, e ao fazerem isto provocaram rupturas com velhos padrões, sobretudo para poder acolher os novos companheiros das filhas ou dos filhos e entender os rompimentos e o direito dos jovens de buscar um companheiro diferente daquele com quem teve a criança.”

Pode-se observar que o fato da adolescente engravidar envolve não só a si, mas sobretudo, todas as pessoas que fazem parte de sua vida. Entretanto, a gravidez será assimilada, aceita, desenvolvida na adolescente que entrenta uma mudança radical, tanto corporal quanto emocional. Vê-se também que essa etapa é justamente àquela na qual estruturamos nossa identidade, ou seja, altera-se a visão de mundo a partir da infância e inicia-se um processo de orientação para a fase adulta. Ressaltando esta consideração, Carter e McGoldrick (1995, pág. 227) afirmam que “A identidade se refere à opinião pessoal de alguém sobre quais traços e características o(a) descrevem melhor. Esta auto-estrutura sofre a sua maior transformação durante a adolescência, quando parece tornar-se mais abstrata e psicologicamente orientada.” Baseado nesta informação, refletimos sobre como se encontra a auto-estima e auto-imagem desta mulher que acredita ter cometido um erro perante o pré-estabelecido (casar-se e depois ter filhos) e que terá conseqüências pelo resto de sua vida. Quanto à auto-estima podemos considerar que se encontra baixa, pois a responsabilidade sobre este ato é, muita vezes, somente sua e esta não acredita dispor de recursos, tanto internos quanto externos, para vivenciar este momento. Com relação à auto-imagem, verificamos que é contraditório para a adolescente ver-se como uma criança em desenvolvimento e em outro momento dando à luz a outra criança, na qual necessita de todo o seu amparo e proteção, ao mesmo tempo, em que precisa de tudo isso também. A adolescente experimenta um misto de sentimentos que vão desde a alegria da notícia da gravidez ao desespero em gerar uma nova vida. Segundo Bernardes & Luz (1978, pág. 100) “... a maternidade representa um fardo pesado, contradizendo a mitificação ideológica produzida pelas relações de gênero e classe social hegemônicas na sociedade brasileira. Em decorrência, para tentar superar as situações geradoras de sofrimento, a mãe adolescente necessita de uma rede de apoio. Esta deve incluir não apenas seu companheiro/marido, pessoas da família ou da família do pai da criança, mas, sobretudo, políticas públicas e equipamentos sociais que criem condições para que, de um lado, o cuidado e a educação da criança não signifiquem uma tarefa social assumida somente pela mãe, mas uma tarefa social coletiva, e para que, de outro lado, a vida dessa jovem não fique restrita aos limites da domesticidade, se assim o desejar.”

Por fim, não desejamos isentar a adolescente da responsabilidade de uma gravidez não planejada, o que nos propomos é avaliar qual a repercussão deste fato e o que verificamos é que esta mulher necessita de amparo e proteção, assim como compreensão, pois criticas e julgamentos não a ajudará. Esperamos que a sociedade possa detectar esta dificuldade e auxiliar em sua prevenção.

Bibliografias Consultadas:

Barroso, C. et all. Gravidez na Adolescência. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1986.

Bernardes, N. M. G. & Luz, A. M.H. Educação. Volume I. Porto Alegre, PUC, RS, 1978.

Carter, B & McGoldrick, M. As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar: uma estrutura para a terapia familiar. Trad. Mara Adriana Veríssimo. 2ª edição, Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.

Desser, N. A. Adolescência: Sexualidade & Culpa. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1993

Melo, A. V. de Gravidez na Adolescência. Dissertação apresentada como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1993.

Osório, L. C. Adolescente Hoje. Porto Alegre, Artes Médicas, 1989.

Perls, F. Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1977.

Pinto, E. B. Gravidez na Adolescência. www.guiadosexo.com.br 22/10/2001. 18h00’

Revista Viver Psicologia – Edição 102 – Ano 2001.

Saikali, M. O. J. Pais Jovens... Avós precoces. Quando somos jovens demais para sermos avós, e muito maduros para, novamente, sermos pais de um bebê. Monografia apresentada como exigência parcial para a obtenção do título de Especialista em Terapia Familiar e de Casal do Núcleo de Família e Comunidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2000.


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