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Perdoar é humano. Enxaqueca, gastrite e insônia são sinais de que algo vai mal, certo? Pois acredite: o perdão pode ser a cura para esses e muitos outros males. Fazer as pazes com você mesma e com a mundo alivia a alma e, ainda, dá força para a saúde.
Revista Pense Leve, Outubro 2010
Quem não pede perdão não é nunca perdoado, cantaram Vinícius de Moraes e Tom Jobim na década de 60. Se o verso de Insensatez soou desconhecido aos seus ouvidos (e olhos), não precisa ficar intrigada. O importante mesmo é perceber que a frase oferece um bom conselho: um pouquinho de coragem e iniciativa caem muito bem para quem sonha em alcançar a tão desejada "absolvição" pelos erros cometidos. Não que seja fácil engolir o orgulho. Lá no fundo, todo mundo sabe que perdoar de verdade, muitas vezes, exige esforços incalculáveis - e isso serve para qualquer pessoa, independentemente de gênero, idade, estado civil, religião e classe social. Aliás, o ato de perdoar é tão complexo que se divide em três etapas. "A primeira é se responsabilizar pelo ato cometido, a segunda é repudiar o ato e a terceira é se arrepender profundamente. Aí, cabe à pessoa superar a dor causada e aceitar as desculpas, e cabe a quem pede perdão compreender que o pedido pode ser aceito ou não", diz Roseleide Santos, psicóloga da Clínica Viver com Qualidade, de São Paulo. Vá em frente!
Sem desculpas
Pare e pense por um instante: o que é imperdoável para você? Traições, mentiras, omissões e tantas outras coisas podem aparecer nessa lista, mas, seja como for, tudo isso tem a ver com a culpa, aquela angústia que pesa nas costas quando nos sentimos contrariadas por alguém e, inclusive, por nós mesmas. Sabe aquela coisinha ruim que dá sempre que você se rende à preguiça e deixa de ir à academia? Pois bem, este é o tipo de culpa que ataca sua própria consciência e está relacionado apenas a você. Por outro lado, a mesma sensação aparece quando você se atrasa para o jantar e tem de lidar com a cara feia do maridão.
Essas situações tão comuns no dia a dia ajudam a mostrar que a culpa pode bater a qualquer instante. "Não corresponder às próprias expectativas ou às da família é algo que ajuda a alimentar esta sensação, mas nem sempre as pessoas conseguem enxergá-las ou resolvê-la e carregam isso por toda a vida", alerta Roseleide.
Cabeça quente
Não importa de onde venha, a culpa tem tudo a ver com a noção de certo e errado que criamos individualmente. E não se engane: mais que simples valores, esses conceitos participam, inclusive, do funcionamento do cérebro, onde são transformados em reações químicas e bioelétricas. Aliás, é justamente esse processo cognitivo que define a interpretação que fazemos dos fatos.
Em tempo: "È o cérebro que definirá o que pensamos de nós mesmos. Assim, a culpa pode surgir como fruto de uma avaliação autodepreciativa em consequência a um comportamento não apenas reprovável pela sociedade, mas também por nós", diz Paulo de Mello, coordenador de estudo e pesquisa em psicodinâmica neuropsicanalista, da unidade de medicina comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Corpo doente
A falta de perdão pode, sim, virar gatilho para o surgimento de doenças. O estresse gerado pela raiva e rancor, por exemplo, estimula o organismo a produzir e lançar mais adrenalina no sistema límbico (parte do cérebro responsável pelas emoções). "A adrenalina dá a sensação de força e vitalidade, porém, em excesso, pode aniquilar o trabalho dos glóbulos brancos e enfraquecer o sistema imunológico", explica a psicóloga.
Intestino preso, gastrite, enxaqueca, insônia, oscilações de humor, melancolia, fadiga crônica e falta de apetite são sintomas que podem aparecer diante das emoções negativas do imperdoável. "Quando a culpa vem acompanhada de mágoa, é possível o desenvolvimento de doenças psicossomáticas em pessoas geneticamente predispostas", diz Paulo de Mello. Prova maior disso é que inúmeros estudos têm apontado a culpa como mais uma provável variável a favor do câncer, ao lado do tabagismo, alcoolismo e depressão.
Conselho de amigo
Abrir-se com amigos, buscar ajuda profissional, procurar orientação espiritual ou até mesmo praticar atividades físicas são excelentes maneiras de extravasar as sensações ruins e dar um chega para lá na culpa. Não importa a escolha, o que interessa é encontrar uma forma de compreender o acontecimento que deixou tantas marcas ruins tatuadas.
É claro que isso tudo pode tomar seu tempo e exigir paciência extra, mas o resultado é sempre libertador. "Para se perdoar alguém ou nós mesmos é fundamental ser capaz de enxergar o outro e saber quais são suas necessidades, desejos, privações e limitações. É saber respeitá-lo como é para que possamos nos respeitar como somos", conclui o especialista Paulo de Mello, da Unifesp.
Clínica de Psicologia VIVER COM QUALIDADE
Rua: Visconde de Itaboraí, 422 - Tatuapé - São Paulo - CEP 03308-050 - Fone: (0xx11) 2942-9586