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O Plantão Psicológico na Abordagem Gestáltica
Roseleide
da Silva Santos
Trabalho apresentado no I Congresso Brasileiro Psicologia: Ciência e Profissão, 04 de setembro de 2002, como parte integrante da Mesa redonda: “Plantão Psicológico: Uma Perspectiva que se Amplia”.
Minha
proposta nesta mesa é apresentar o Plantão Psicológico fundamentado nos
conceitos da Gestalt Terapia através da explanação de suas características
que, a meu ver, trazem uma nova visão e contribuição para o trabalho
psicoterapêutico.
Em
primeiro lugar, vamos buscar uma definição que possa nos auxiliar na compreensão
sobre o que é Plantão Psicológico. Lembro-me quando ouvi pela primeira vez
este termo: cursava o último ano da graduação e fiquei muito curiosa no que
consistiria este tipo de atendimento. As primeiras indagações que levantei
foram: seria um trabalho semelhante ao plantão médico, aquele que conhecemos
no pronto socorro, que atende os pacientes numa emergência? se fosse desta
maneira, como atender a uma pessoa de uma forma rápida e eficaz? Estas e outras
dúvidas foram colocadas por mim e meus colegas de sala e a partir disto começamos
a conhecer o trabalho num plantão.
Segundo
Cautella Jr. (in Morato,1999, pg. 171) “O Plantão Psicológico é um
instrumento que se propõe a facilitar o resgate de uma visão mais integrada do
cliente”. Neste intuito, para que o trabalho aconteça de forma satisfatória,
a relação estabelecida entre cliente e psicoterapeuta é baseada em ajuda mútua,
ou seja, o cliente procura um ambiente acolhedor no qual sua demanda seja
recebida e compreendida e o psicoterapeuta o aceita sem julgamentos e criticas.
O psicoterapeuta tem como função básica à de facilitador deste processo,
através da relação de ajuda que estabelece com seu cliente, colocando-se à
disposição para acolher a experiência do cliente e não apenas seus sintomas.
Wood (in Rosenberg, 1987, pg. 27) diz que “ajudas bem-sucedidas parecem
envolver e ajudar a pessoa em transição a experienciar e dar sentido ao que
experiencia, enquanto se acreditar na pessoa como capaz de crescer e assumir
suas novas situações de vida.”
Entretanto,
podemos nos perguntar a que tipo de ajuda estamos nos referindo? De imediato,
parece que o Plantão Psicológico seria somente receber o que o cliente nos
relata e transmitir uma resposta à demanda. Parece fácil, todavia esta tarefa
não se torna tão simples como possa parecer, pois não apenas ouvimos o que o
cliente nos relata mas, efetivamente, estabelecemos uma relação na qual
estamos atentos às queixas do cliente e ao modo como esta situação interfere
nas várias esferas de vida da pessoa. Segundo Rosenberg (1987, pg. 27)
“embora a função facilitadora do profissional de ajuda (suas atitudes ante o
cliente) seja a mesma em qualquer atividade que esteja desempenhando num dado
momento, dependendo desse mesmo momento, sua atividade varia, exigindo dele
certos conhecimentos, informações e técnicas que facilitem sua relação de
ajuda com o cliente.”
O
Plantão Psicológico foi concebido baseado na Abordagem Centrada na Pessoa de
Carl Rogers, que como o próprio nome diz, enfatiza como o cliente se utiliza de
sua capacidade em superar adversidades e delas resultar em crescimento pessoal.
A Abordagem Centrada na Pessoa, assim como a Gestalt Terapia, acredita que o
indivíduo é capaz de aprimorar sua potencialidade inerente em recursos para
uma existência plenamente satisfatória. Além da Abordagem Centrada na Pessoa,
podemos aproximar o Plantão Psicológico da Abordagem Gestáltica, no ponto no
qual ambos têm em comum: referem-se à postura do pscoterapeuta como um
parceiro inter-humano, ou seja, um profissional que facilita o processo de
entendimento do cliente sobre si, não direcionando a terapia, mas o auxiliando
e ajudando neste trajeto, preocupando-se em permitir que este reconhecasse
totalmente capaz e responsável em assumir sua vida e dela usufruir de maneira
prazerosa.
Mediante
esta breve explicação sobre as características do Plantão Psicológico,
quero ater-me ao tema proposto para esta apresentação: conceber o Plantão
Psicológico na Abordagem Gestáltica.
A
Gestalt Terapia trabalha a partir do que o cliente traz para o atendimento, o
que para ele é importante naquele instante, ou seja, a sua necessidade
preponderante. Em termos gestálticos, estamos falando do conceito figura e
fundo.
Esta
abordagem afirma que a pessoa deve ser vista com um todo, ou seja, que seu
comportamento só se torna compreensível a partir de sua visão dentro de um
determinado campo com o qual ela se encontra em relação. O indivíduo é uma
totalidade, composta por partes interligadas que estabelecem um fluxo de
necessidades que à medida que são realizadas dão espaço a outras, criando,
assim, seu ciclo vital.
Esta
visão organísmica nos permite compreender o indivíduo como um organismo que
integra uma totalidade e como tal o que ocorre em uma parte afeta o todo. A
Teoria Organísmica, que tem sua origem nos estudos de Kurt Golstein com
pacientes de guerra com lesão cerebral, foi devidamente analisada e
acrescentada a Gestalt Terapia quando Perls relata que “a formação de uma
Gestalt, a emergência de necessidades, é um fenômeno biológico primário.
Assim, abolimos toda a teoria do instinto e consideramos o organismo
simplesmente como um sistema que está em equilíbrio e que deve funcionar
adequadamente. Qualquer desequilíbrio é experienciado como necessidade a ser
corrigida. A situação mais urgente emerge e, em qualquer caso de emergência,
você percebe que ela prevalece sobre qualquer outra atividade. Portanto,
chegamos agora ao fenômeno mais importante e interessante de toda patologia:
auto-regulação versus regulação externa” (Tellegan, 1984, pg. 39).
Basicamente, podemos exemplificar com as necessidades de alimentação, dormir
etc..
“A
auto-realização é o único motivo do organismo e só se completa pela satisfação
das necessidades. O processo homeostático é aquele pelo qual o organismo mantêm
seu equilíbrio, e consequentemente sua saúde, sob condições diversas. A
homeostase é, portanto, o processo através do qual o organismo satisfaz suas
necessidades... Desta forma, poderíamos chamar o processo homeostático de
processo de auto-regulação, o processo pelo qual o organismo interage com seu
meio.” (Hall e Lindzey, 1973, pg. 337)
Fundamentos
na teoria organísmica, podemos afirmar que o homem possui um impulso dominante
de auto-regulação pelo qual é permanentemente motivado e quando isto não
ocorre, nos deparamos com a situação inacabada que nos rouba energia e não
nos permite ver novas perspectivas, e que impossibilita novos contatos.
A
Gestalt Terapia, portanto, concebe a psicoterapia baseada no contato aqui e
agora do cliente com suas necessidades, através da relação com o
psicoterapeuta, pois este facilita o acesso à expressão do vivido, do
experienciado. Segundo Ribeiro (1985, pg. 79) “Estar no aqui e agora contém e
explica a minha relação com a realidade como um todo, ou seja, o que eu vejo,
o que eu percebo agora pode ser explicado pelo agora, sem necessidade de
recorrer a experiências passadas pela percepção; o aqui e agora de uma emoção
é o caminho mais curto para atingir o todo, sua realidade total expressa em
base ao presente de seu campo fisiológico; viver o aqui e agora é um
experienciar a realidade interna e externa, como ela acontece, tenha ou não
antecedentes que a expliquem ou justifiquem, a pessoa se compreende como um
todo.”
Outro
aspecto importante a ser mencionado da abordagem gestáltica, neste tipo de
proposta de psicoterapia, é a forma como podemos pensar em satisfação de
necessidades sabendo-se que estas, como vimos anteriormente, são saciadas a
partir de nossas interações com o meio. A Gestalt Terapia nos responde que
podemos desenvolver ajustamentos criativos capazes de saciar nossas necessidades
através da relação com o meio, ou seja, usamos de nossa capacidade criativa
para interagir com o meio que por algumas vezes pode se tornar hostil.
Por
fim, após reconhecermos nossas necessidades e estabelecermos um processo de
satisfação destas podemos considerar que tomamos consciência de nossas
vontades e delas fazemos uso. Em termos gestálticos, falamos de awareness que
segundo Kyan (2001, pg. 160) “só é eficiente quando fundamentada e
energizada pela necessidade preponderante presente no organismo; não é
completa sem o conhecimento direto da realidade da situação e de como se está
nela e é sempre aqui e agora, é mutante desdobrando-se e transcendendo-se.”,
ou seja, dá significado ao que acontece.
Após
esta apresentação, vem a dúvida se tornei-me compreensível, pois falar de
conceitos teóricos é interessante, mas acredito que exemplificando torna-se
claro e acessível. Para isso escolhi uma música que atualmente faz muito
sucesso, intitulada Epitáfio, cantada pelo grupo Titãs: “Devia ter amado
mais, ter chorado mais, ter visto o Sol nascer; devia ter arriscado mais e até
errado mais, ter feito o que eu queria fazer. Queria ter aceitado as pessoas
como elas são. Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração. O acaso
vai me proteger enquanto eu andar distraído. Devia ter complicado menos,
trabalhado menos, ter visto o Sol se pôr. Devia ter me importado menos com
problemas pequenos; ter morrido de amor. Queria ter aceitado a vida como ela é.
A cada um cabe a alegria e a tristeza que vier. O acaso vai me proteger enquanto
eu andar distraído...” Vejam como esta citação transmite a realidade vivida
por todos nós, a difícil tarefa de aceitar e acatar nossos desejos e vontades
e colocá-las em prática.
Então,
vamos transportá-la para o Plantão Psicológico: o cliente em questão traz
para a sessão uma necessidade inacabada que lhe aflige e consome sua energia
vital, que é a figura, que não pode ser desmembrada de seu fundo, a totalidade
do indivíduo. Trabalhamos com as emoções e vontades do cliente naquele
momento, aqui e agora, e os desdobramentos que desta situação decorrem.
Portanto, o indivíduo encontra-se num momento de desequilíbrio, no qual não
percebe alternativas em responder às suas perguntas e neste período vê-se
fragilizado pela ausência de fluidez entre sua necessidade (figura) e sua
totalidade (fundo). O Plantão Psicológico, através do psicoterapeuta, cria um
espaço vivencial no qual o cliente não fala sobre o acontecimento, mas sim
revive uma nova experiência que possibilita uma transformação que desperta
uma nova visão integradora. Vale ressaltar que o indivíduo, neste momento,
encontra-se em crise, isto é, vê-se impossibilitado em reestabelecer sua
auto-regulação, percebendo-se incapaz em satisfazer suas vontades e desejos.
Para que este processo seja satisfatório, há a necessidade de uma transformação
que é mediada pelos ajustamentos criativos que o indivíduo estabelece com seu
meio para que suas necessidades sejam sanadas, ou seja, cria-se um processo de
ajustamento e reavaliação que possibilita mudanças, fechando, assim, a
figura. Todo este movimento é a busca da awareness, ou seja, a percepção,
conscientização da necessidade significativa à pessoa, daquilo que lhe faz
sentido, se apropriando de sua totalidade e integridade.
Referências Bibliográficas:
Hall, C. S. e
Lindzey, G. Teorias da Personalidade. São Paulo: EPU, 1973.
Kyan, A. M. M. E
a Gestalt emerge: vida e obra de Fritz Perls. São Paulo: Altana, 2001.
Lilienthal, L. A. Deflorações. Revista de Gestalt Terapia do Departamento de Gestalt Terapia do Instituto Sedes Sapientae, n.º 03, Vol. 1, 1994.
Morato, H. T. P.
(Org.) Aconselhamento psicológico centrado na pessoa: novos desafios. São
Paulo: Caso do Psicólogo, 1999.
Ribeiro, J. P.
Gestalt Terapia: Refazendo um Caminho. São Paulo: Summus Editorial, 1985.
Rosenberg, R. L.
(Org.) Aconselhamento psicológico centrado na pessoa. São Paulo: EPU, 1987.
Tellegan, T.
Gestalt e Grupos. São Paulo: Summus Editoral, 1984.
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