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Amar
é coisa de gente grande
*
Raphael Cangelli Filho
Vamos voltar um pouco em nosso processo de desenvolvimento e lembrarmos de nossa adolescência.
Processo vivido entre a infância, na qual a sobrevivência física e psíquica depende dos adultos, e a fase adulta, caracterizada pela maturidade e pela independência econômica, a adolescência é marcada pelas tarefas de busca de autonomia nas tomadas de decisão, busca de identidade, de individualização.
É um processo onde a sexualidade transforma não somente o eu físico, como também assinala o início de uma transição psicológica.
Os adolescentes se percebem capazes de serem amados por outras pessoas que não as da sua família.
E por falar em Família, é nesse sistema que somos, ou pelo menos deveríamos ser, encorajados a enfrentar os problemas que nos são apresentados na adolescência.
Problemas para cuja solução necessitamos de famílias flexíveis, onde possamos sentir a segurança da orientação dos pais.
Por ter certeza dessa segurança e do sentimento que os pais têm pelos adolescentes é que os adolescentes experimentam novas formas de abrir caminho, recorrem a ataques de raiva, buscam apoio nos avós, apresentam intermináveis exemplos de amigos que têm mais liberdade, ou se retraem emocionalmente por trás de portas fechadas.
E é atrás dessas portas fechadas que os adolescentes buscam as soluções, às vezes soluções mágicas para seus problemas dão asas à sua imaginação.
Imaginação: uma habilidade cognitiva usada na resolução de problemas, como fuga nos momentos em que a realidade é difícil de ser enfrentada, como proteção nos momentos em que a realidade ameaça a nossa saúde mental, habilidade que nos permite ir e vir sem sair do lugar, rever nossos relacionamentos, lembrar de cada momento já vivido, desenhar cada pedaço do momento futuro.
“Um
sonho que se sonha só”
É com essa imaginação que criamos momentos onde com toda a certeza estaremos felizes, completos, realizados.
Usamos das experiências já vividas, das emoções já sentidas, dos momentos já vividos para nos imaginarmos num tempo futuro.
Passamos a buscar representações do já conhecido para imaginarmos o desconhecido e com isso diminuir a ansiedade frente ao novo.
A imaginação é um sonho e, como diz Raul Seixas, “um sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só”.
Nesse sentido, o lugar não importa: pode ser um castelo, uma casa, uma praia, um parque, uma montanha, uma cabana, uma avenida, um lugar.
O tempo também não importa: pode ser amanhã, a próxima semana, o próximo mês, ano, alguns anos.
O que importa é que aconteça. Nesse sonho o que importa não é o que se faz, é o que se sente a partir daquilo que é feito.
E que, para nesse sonho possamos nos sentir felizes, é preciso quase sempre que alguém participe dele.
É a realização da crença de que não se pode ser feliz se se estiver só.
Esse personagem imaginário é tão real dentro desse sonho que chega a ter forma, sentimento, pensamento, atitudes.
Dele se esperam frases ditas nas horas exatas, atitudes corretas, pensamentos românticos, expressões de emoções que demonstrem sentimentos sinceros; dele se espera que nos olhe no fundo dos olhos e sem dizer palavra alguma, nos dê a segurança e a certeza de sermos amados, é como se já tivéssemos decidido quem será a pessoa merecedora do amor guardado.
Despertado do sono, mas não do sonho, vamos em busca desse ser, que com certeza existe, só ainda não conhecemos, não nos cruzamos numa esquina qualquer.
Passamos
a procurar na multidão o rosto dessa pessoa e a identificar na realidade se o
sonho pode se transformar.
A
pessoa como ela é
Quando encontramos alguém que demonstre, por menor que seja a “pista”, ser o personagem do sonho, a possibilidade do sonho se tornar realidade é tão desejada que passamos a sentir o que sentimos no sonho e julgamos ser esse personagem o responsável por esse sentimento.
Começa aí a confusão pessoa-personagem.
Conhecemos tão bem esse personagem e tão pouco essa pessoa.
Não deixamos essa pessoa ser ela mesma.
Nos satisfazemos com o pouco que conhecemos dela e que se assemelha de tal modo com a personagem, que fechamos os olhos, com desculpas, explicações emocionais, insensatas, mas apaixonadas, para nos fazer acreditar que o sonho e realidade são uma só.
Com medo de perder esse sentimento vivemos o sonho.
Mas chega o momento em que mesmo despertos do sono, temos que despertar do sonho, destrancar as portas fechadas e, sem usarmos da imaginação, olharmos para a realidade, correr o risco de perder a paixão e dar lugar a outro sentimento.
É preciso conhecer a pessoa, deixar que ela se apresente a nós tal como ela é.
A paixão é um fogo imenso que logo se apaga e a afetividade conjugal é uma chama que arde lentamente, que mantém cálido o coração trazendo segurança e conforto.
Temos de ser adultos o suficiente para conhecermos o outro por quem por um tempo fomos apaixonados e que, por nutrirmos esse sentimento, não quisemos conhecer, mas apenas reconhecer nele o sonho sonhado.
É preciso reconhecer quão egoístas fomos não permitindo que esse personagem desvendasse a pessoa que por detrás dele havia.
Nós, como adultos, tomamos a decisão de nos iludirmos com uma relação afetiva onde só um dos lados ama, só um dos lados decide, escolhe como deve ser essa relação.
Nem sempre o final da paixão coincide com o final do sonho, da realidade, ou do relacionamento.
Amor,
encontro de pessoas reais
Há relações em que o amor preenche o espaço antes ocupado pela paixão, mas para isso é preciso que conheçamos a outra pessoa. Suas idéias, seus pensamentos, suas formas de expressar suas emoções e provocar em nós sentimentos até então desconhecidos. Experiências não vividas, frases ainda não ouvidas, pessoas não conhecidas.
Numa relação afetiva, é necessário que duas pessoas reais se encontrem, conversem sobre ideais de vida, seus desejos, objetivos, sonhos comuns.
Para amarmos e sermos amados, é preciso que sejamos livres para entrar numa relação afetiva sem depositar no outro nossa felicidade.
É preciso respeitar a liberdade do outro, liberdade de estarmos sós ou juntos, sem deixarmos de estar felizes.
O primeiro desenho apresenta uma relação matrimonial pobre e com poucas coisas compartilhadas.
O segundo desenho representa um excelente matrimônio: aqui, de 75% a 80% das atividades são divididas, mas mantém-se dependência suficiente para permitir o crescimento individua e sua necessária privacidade.
O terceiro desenho representa o ideal romântico onde os dois parceiros se fundem tão completamente que se tornam um.
Na prática, se isso for possível, provavelmente causará um grande “sufoco” emocional.
Esse diagrama pode também explicar como os casais se enganam ao pensar que ambos têm de estar juntos em todas as experiências para com isso representar o amor que sentem um pelo outro.
Se estiverem juntos sempre, um viverá a vida do outro.
Um não respeitará a liberdade do outro.
Um não decidirá sem a decisão do outro.
Um não será EU sem que exista o outro.
Um só existe se existir o outro.
Se o outro não existir, o um não existe, o um não tem identidade.
A paixão cega um lado da relação.
Ou eu não me vejo ou não vejo o outro.
O interessante é podermos perceber como cada um de nós entra para uma relação afetiva. O que levamos na bagagem. Do que é feita a mala que levamos para este encontro.
Expectativas, sonho, desejos, enganos, experiências felizes ou desastrosas, mitos em que acreditamos a partir do que nos falavam outros casais, e talvez o pior de todos seja aquele que diz que você é responsável pela felicidade do outro.
Os problemas são inevitáveis quando se espera do outro a felicidade.
A felicidade planejada tarde tende a se transformar em sofrimentos inesperados. Porém, se alguém acredita que sua felicidade está nas mãos dos outros, a tendência é sentar e esperar para receber grandes proporções de felicidade, como se fossem uma grande torta de maçã.
A expectativa de que a felicidade será pré-fabricada ou entregue por outro cria um estado de passividade ou até mesmo de letargia – dois estados definidos que tendem geralmente para a depressão.
Outro fator de confusão é que alguns parecem incapazes de alegria ou felicidade. Sermos responsáveis pela nossa própria satisfação e realização, aumenta as possibilidades da vida em geral. Se alguém coloca obstáculos em nosso caminho, nos convém uma atitude mais positiva e assertiva. Não é obrigação do seu parceiro nem de ninguém fazer o outro feliz, nem você deve permitir a ninguém determinar quanta alegria, quanta jovialidade e energia você pode ter na sua vida.
“Um sonho que se sonha só
Ë só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto
É realidade.”
Referências
Bibliográficas:
Carter, B. e Goldrick, M.M. – As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar. Ed. Artes Médicas, Rio Grande do Sul, 1995
Lazarus, A. A. – Mitos Conjugais. Ed. Psy, São Paulo, 1992
*Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Psicoterapeuta de adolescentes e adultos. Professor-Supervisor de Estágio Clínico em Terapia de Adolescente no Curso de Psicologia da Universidade São Judas Tadeu, São Paulo. Coordenador do Hospital Dia do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP.
Consultório: Avenida Rouxinol, 55 – Conjunto 1111 - Moema - São Paulo. Telefone: 11 3054-9540
Clínica de Psicologia VIVER COM QUALIDADE
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